Contexto histórico de Tito e a Lei


Rav David Shem Tov

Data em que o Evento se passa

Provavelmente estamos em meados de 66 EC. Nesse período alguns judeus em Israel já começaram uma guerra contra o Império Romano que resultará na invasão de Jerusalém e a destruição do Templo em 70 EC. Nessa época, qualquer judeu já era mal visto por Roma e, portanto havia uma necessidade de demonstrar uma diferença circunstancial dos demais judeus que apoiavam a guerra.

Como sabemos os Natzratim não se envolveram nessa Guerra contra Roma, e assim posteriormente (depois de 135 EC, época da segunda revolta), ficaram conhecidos como traidores. Talvez isso nos ajude a compreender o porquê Sha’ul instrui no Capítulo 3 sobre a prontidão de cooperar com o governo de uma forma honrosa, com obediência, sem serem insubordinados (Titus 3:1-2). Longe da forma tradicionalmente compreendida, de que devemos honrar ao Governo, o que Sha’ul pretendia era que os Talmidei Yehoshua não se envolvessem em contendas que pudessem confundi-los com os que eram a favor da guerra.
Motivo da Carta

Sha’ul havia recebido notícias de que Titus estava com problemas nas Congregações. Titus havia sido enviado a Creta, a fim de ajudar a Sha’ul num empreendimento que estava deixando todos os discípulos apreensivos.

“A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pudesse se dedicar aos assuntos ainda não resolvidos e indicar líderes congregacionais em cada cidade...” (1:5).
Após a morte de Ya’akov HaTzadik em 63 EC, houve uma debandagem muito grande de discípulos, que se desviaram dos ensinamentos da Verdade, corrompidos pela ganância de serem líderes. Sha’ul escrevendo para Timoteus, um pouco mais tarde, disse a ele:

“Procura vir ter comigo depressa; pois Demas me abandonou, tendo amado o Olam hazê, e foi para Tessalônica, Crescente para a Galácia, Titus[1] para a Dalmácia; só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” (Timoteus alef/1 Timóteo 4.9-11).

Talvez esse texto preserve a apostasia de vários discípulos que cooperaram com Shaul no início do seu ministério, abandonando-o no final de sua carreira. O problema com lideranças ganciosas e dominadoras, que se utilizavam da força e de pressões psicológicas já estava em alta nessa época (1:7ss). A preocupação de Sha’ul era que o Ensinamento fosse passado de forma metodologicamente correta:

“Você deve sustentar com firmeza a Mensagem Verdadeira de acordo com o Ensinamento; para que mediante o Ensino Correto, seja capaz de exortar, encorajar e também refutar quem se opõe a ela.” (1:9).
Nessa época já existiam pelo menos 3 facções, ou divisões que tiveram origem a partir da distorção dos Ensinamentos Natzratim. Todas elas estão bem encubadas nesta época, mas em breve vão buscar o título de “Verdadeiras” para si, uma separada das outras.

A primeira delas era a dos Ebionitas, que é chamada nessa carta de “os da circuncisão”. Segundo Sha’ul eles não eram judeus de nascimento (Veja Gl 2:15, em seu contexto), haviam sido forçados à circuncisão, e forçavam a circuncisão como meio de salvação (ver Atos 15:1ss). Eles se opunham a Sha’ul, chamando-o de “apóstata”, e por não compreenderem os seus escritos os distorciam (2 Pe 3:15,16).

A segunda eram os Cristãos, que surgiram na cidade de Antioquia. Esses destituíram-se da Torá e ostentavam para si serem o “Verdadeiro Israel”. Utilizando-se de suas interpretações distorcidas, eles lançaram as bases para a doutrina que ficou conhecida posteriormente como “A Teologia da Substituição”. E segundo Jerônimo no IV séc. EC: “Os judeus insistem em uma interpretação literal das Escrituras... mas nós sabemos que a interpretação espiritual é muito superior”.

 E a terceira era o Gnosticismo Cristão que surgiu em Alexandria, no Egito. Eles misturaram os “mistérios” do antigo Gnosticismo com os conceitos cristãos para formar uma nova ideologia que via o mundo físico como um inimigo para o ser humano.

Sha’ul trata diretamente com os chamados “os da circuncisão”, os Ebionitas, pois eles eram os mais ferrenhos opositores a Sha’ul. E o conselho de Sha’ul a Titus é o seguinte:

“Por esse motivo, você deve ser SEVERO ao repreender quem seguiu o falso ensinamento deles, para que voltem a ter confiança no que é sadio e não deem mais atenção aos mitos judaicos ou aos mandamentos de homens que rejeitam a VERDADE”.
Precisamos entender que Sha’ul aqui está dizendo que ao seguirem mandamentos humanos, mitos, e coisas inventadas, na realidade eles estão recusando e rejeitando a própria Verdade. Mas a que verdade Sha’ul está se referindo? Sha’ul lança mão da Torá, que é identificada com a Verdade (Sl 119:142 e Jo 17:17), e usa o mesmo argumento de seu Mestre, Yehoshua de Natzrát, que declarou que mandamentos humanos que passam por cima da Torá devem ser entendidos como desobediência ao Criador (Toledot 15:3).

As instruções

Sha’ul dá a instrução correta de como a liderança deveria ser selecionada. Como deveria ser a conduta de cada pessoa em referência à Comunidade (Ver capítulos 1 e 2). Instrui também a Titus a se impor como convém, não deixando que ninguém o despreza-se só pelo fato de ser mais jovem que os demais (2:15).

O ponto Máximo da Mensagem

Sem palavras eu quero citar o próprio texto da Carta:

“... A Graça de Elohim, que traz liberdade, apareceu a todo ser humano. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e aos prazeres mundanos e a viver de maneira controlada, justa e piedosa no Olam hazê, enquanto aguardamos o cumprimento da nossa esperança infalível: o aparecimento da Glória do nosso Grande Elohim e Libertador, a Yehoshua, o Mashiach. Ele se entregou por nós afim de nos libertar de toda a violação da Torah e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, desejoso de praticar o que é bom. É isso que você deve ensinar...” (2:11-15).
Confiram que Sha’ul lança mão desta forma de interpretação para dizer que o Eterno quer um povo separado, “uma propriedade exclusiva”, como a Torá especifica que deve ser o povo de HaShem, e depois cita por meio de interpretação também buscando a semelhança das palavras. O que é Bom segundo a citação? Confira (Pv 4:2)! Onde é feito uma interpretação com a palavra “Tov”, (Bom). No Talmud Babilônico é feita a mesma analogia (Berachot 5A).

Últimos Conselhos

Os últimos conselhos são os mais interessantes! Sha’ul dá instrução a não ficar debatendo questões referentes a Halachot, ou seja discussões inúteis referentes a Torá. Sabemos que os Natzratim tinham uma forma diferente de ver a Halachá. Sha’ul deixa claro também que discutir méritos, ou superioridade por causa de genealogias não levariam a lugar algum (3:9). Por fim ele estabelece que uma pessoa que seja advertida por duas vezes, e permanece no erro de interpretar incorretamente as Escrituras, deve ser largadas de mão, testificando em si mesma que está pervertida (3:10, 11).

Sha’ul conclui a carta dizendo que estava para enviar para Creta a Ártemas ou a Tíquico, para substituí-lo por um tempo até que o próprio Titus conversasse com ele (Sha'ul) pessoalmente (3:12). E que Titus não só o ajudasse, mas recebesse bem dois reforços para a Comunidade, Zenas e Apolo, descritos como especialistas na Torá (3:13). E por fim Sha'ul diz: “Que o nosso povo aprenda a se dedicar à prática de Boas Obras, que verdadeiramente suprem necessidades, e assim não fiquem improdutivos.” (3:14).



[1] Tius é registrado aqui como um dos que haviam abandonado a Sha’ul no fim de sua carreira. É possível que ele tenha sucumbido aos ensinamentos de um dos grupos de oposição a Sha’ul.

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