Yehoshua Ben Yosef de Natzrat. — Venha e veja.
Rav David Shem Tov
Atualmente, muitas pessoas, tanto judeus, quanto não judeus
acreditam que os primeiros discípulos de Yehoshua de Natzrat, conhecido no
Ocidente como Jesus, eram “cristãos”. E que eles criaram uma nova religião chamada
de “Cristianismo”. Contudo, os Primeiros adeptos de Yehoshua formavam um
Movimento dentro do Judaísmo, conhecido como Natzratim. Mas, como surgiu este
Movimento?
O Movimento Natzratim surgiu com Rabêinu Yehoshua de
Natzrat, filho de Yosef haTzadik e Miriam haLevi. Rabi Yehoshua foi o discípulo
mais importante de Rabi Yochanan Ben Zecharyah haKohen, que era conhecido como
Yochanan haMatvil (o Imersor – e que a religião Ocidental o popularizou como
João Batista). Rabi Yochanan foi identificado pelo povo de Israel como um Naví,
mas para Yehoshua de Natzrát ele era “Mais do que um Naví” (Toledot Yehoshua 47 – Mt 11:9 nas versões
em português). O Navi era uma pessoa que tinha a capacidade de receber e
transmitir a mensagem divina. Essa palavra é comumente traduzida em português
como “profeta”. Baseado na premissa de que “o
discípulo não é maior do que o seu mestre” (Toledot Yehoshua 45 – Mt 10:24 nas versões em português), Rabi
Yehoshua afirmava: “Dos nascidos de
mulher, não há maior do que Yochanan HaMatvil” (Toledot Yehoshua 48 – Mt 11:11 nas versões em português). Em seus
discursos Yochanan citava como principal característica de sua missão, as
palavras de outro profeta, Yeshayah haNaví:
“Voz daquele que clama: No deserto, prepare o Caminho do ETERNO” (Yeshayah. 40:3).
Nesta mensagem, Yeshayah descreve um tempo em que HaShem
providenciaria um meio (caminho) para que todo Israel fizesse Teshuvá. Assim ele
admoestava o povo na região da Judéia que regressasse com teshuvá antes que a
ira divina se manifestasse na terra de Israel, como alertou o profeta Malachi:
Lembrai-vos da Torá de Moshe, meu servo, a qual lhe
ordenei em Horev a todo Israel, a saber, os estatutos e os juízos. E eis que eu
vos enviarei o profeta Elyah, antes que venha o grande e terrível Dia do
ETERNO; e ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a
seus pais, para que eu não venha e fira a terra com destruição (Malachi 4:4-6).
Em mais de um de seus discursos Yochanan haMatvil declarou
publicamente a messianidade de Yehoshua Ben Yosef. Em uma destas declarações
ele disse:
“Na mão dele está o garfo de joeirar para limpar sua eira. Ele juntará o grão em seu celeiro e a palha será queimada no fogo que não se apaga”
(Toledot Yehoshua 7 – Mt 7:12 nas versões em português).
Com estas palavras
Yochanan fazia referência ao início do texto que foi lido anteriormente que descreve
a era messiânica dizendo:
Pois eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os
insolentes e todos os que cometem perversidade serão como a palha; o dia que
vem os queimará, diz o ETERNO dos Exércitos. De sorte que Ele não lhes deixará
nem raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o Meu Nome nascerá o Sol da justiça,
trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da
estrebaria. Pisareis os perversos, porque se farão cinzas debaixo das plantas
de vossos pés, naquele dia que Eu prepararei, diz o ETERNO dos Exércitos (Malachi 4:1-3).
Quando Rabi Yochanan foi preso por ordem de Herodes, alguns
de seus discípulos retornaram para a Galiléia, entre eles Shimon Kefá
(conhecido no Ocidente como Simão Pedro), seu irmão Guéver (popularmente conhecido
como André), e Yehoshua de Natzrát. Outros, porém, continuaram na Judéia,
como Lazar de Beit-Aniá (popularmente conhecido como Lázaro), que mais tarde
seria conhecido como “hatalmid haahuv” (o discípulo amado) e que a Igreja
Católica erroneamente o confundiu com um outro Talmid de Yehoshua, que é
conhecido no Ocidente com o nome de Apóstolo João.
Próximo aos seus trinta anos de idade, Rabi Yehoshua
estabeleceu seu Centro de Ensino em Kefar-Nachum (Toledot Yehoshua 10 – Mt 4:13 nas versões em português). Foi a
partir dali que ele deu continuidade ao legado de seu mentor, chamando o povo a
fazer Teshuvá antes da vinda da ira divina. Desta maneira ele atraiu grande
quantidade de discípulos de diferentes ramificações judaicas, tanto tzadikim (pessoas justas) como chozrim
bitshuvá (pessoas que decidiram iniciar uma caminhada de obediência aos
mandamentos divinos). Entre os seus discípulos mais destacados encontravam-se
Shimon Kefá e seu irmão Guéver, originalmente discípulos de Yochanan haMatvil,
junto com Lazar, Ya’akov Ben Zavdiel e seu irmão Yochanan, primos de Yehoshua
por parte materna, e também, Matityah haLevi, Tomá e Netanel Bar Telamion, entre
outros. Todos estes discípulos são conhecidos por seus nomes latinizados pela
Igreja, como: Pedro, Lázaro, Tiago, e João filhos de Zebedeu, Mateus, o Levita,
Tomé, e Natanael Bartolomeu. Contudo todos estes homens eram judeus, e possuíam
seus nomes em sua língua materna, o hebraico. Não podemos descaracterizá-los,
dando nomes estrangeiros, e nem mudar seus nomes apenas por capricho ou conveniência
de nossa parte. Eles foram encarregados de transmitir os ensinamentos de Rabi
Yehoshua, e por isso são chamados Sheluchim, ou Emissários em português. Ou
seja, uma função judaica que ainda hoje é desempenhada no Judaísmo Ortodoxo
Moderno. Estes ensinamentos foram identificados por eles como o “Dérech HaShem”
(O Caminho do ETERNO), inspirados na própria definição que Yochanan haMatvil
tinha dado a este Movimento de Retorno.
Rabi Yehoshua frisou a importância de Limud uMa’assê, ou seja, tanto o estudo da Torá, como a sua prática,
e também da Tefilá Yachid (Tefilá
privada), pois segundo Rabêinu, essa prática ajuda em nossa luta contra o nosso
ego. Outros pontos que definem os Ensinamentos de Rabi Yehoshua são Ma’assêi Chésed (atos de bondade), que
é procurar o bem das pessoas sem interesses próprios; e Midat haNekiut (limpeza interior). Rabi Yehoshua deu ênfase também
a abstenção dos prazeres físicos de maneira excessiva, com o fim de alcançar
pureza de coração/mente. Ele expôs enfaticamente que como Servo e Mashiach sua
Zechut, ou seja, seus méritos são de grande ajuda para todo àquele que se
aproxima e se conecta ao Criador através dele e de seus Ensinamentos. E
isso só tem efeito, quando damos o devido valor tanto à sua vida, como ao que representa
sua morte.
Muitas pessoas receberam as palavras de Rabi Yochanan e de
Rabi Yehoshua como verdadeiras, de modo que Rabi Yehoshua enviou mais de 80 Sheluchim
(Emissários) por toda terra de Israel transmitindo seus Ensinamentos. Outros,
simplesmente não deram créditos e não se associaram ao seu movimento. Contudo, alguns
líderes extremistas de sua época criaram uma oposição violenta a tal ponto, que
pouco depois da morte de Rabi Yochanan, Rabi Yeshoshua foi entregue por estas
autoridades às autoridades romanas, com o propósito de o executarem.
Rabi Yehoshua havia advertido aos seus discípulos que sua
morte estava codificada nas Escrituras, e havia sido predita pelos Profetas. As
Escrituras nos ensinam que “a morte do Tzadik seria Kaparat Avonot”
(Expiação pelas iniquidades), e isso tanto em favor dos filhos de Israel,
quanto dos guerêi tzédek (ou seja, aqueles estrangeiros que sinceramente se
integram ao povo de Israel). Rabi Yehoshua dizia que pela sua morte e méritos
seria estabelecida a Brit Chadashá,
a Nova Aliança que foi anunciada pelos Profetas (Yirmyah/Jeremias 31), e por meio desta Aliança seria possível
receber Ruach hakódesh (Influência divina), o que nos possibilitaria viver segundo
a Torá de forma mais natural (Yechezkel/Ezequiel
36:27).
Os Escritos dos Primeiros Talmidim nos contam que no
terceiro dia após sua morte, Rabi Yehoshua ressuscitou e se apresentou vivo à mais
de quinhentas pessoas de uma só vez (1
Coríntios 15:6). Seus discípulos mais achegados foram testemunhas deste evento
e deram muitas provas disso. Muitos deles pagaram com suas próprias vidas ao
anunciá-lo como Rei prometido. Rabi Yehoshua já os havia advertido sobre a
inevitável destruição do Beit HaMikdash e o exílio que viria seguido a este
evento. Havia ensinado também que a restauração do Reino de Israel só
aconteceria quando todo o Povo fizesse teshuvá, só então, eles teriam méritos
para a Redenção final. Por isso, Rabi Yehoshua pediu a seus discípulos que, apesar
das dificuldades que enfrentariam nos próximos anos, não cessassem de
transmitir seus Ensinamentos. Portanto, somos os únicos responsáveis por trazer
o Mashiach e a Redenção Final, através das nossas atitudes, que consistem em Teshuvá
e ma’assê chéssed (um retorno a vontade divina e atos de bondade).
Os líderes entre os Natzratim (ou seja, os discípulos do
Rabino de Natzrat) mudaram-se para Jerusalém e estabeleceram ali a principal
Kehilá e seu Beit Din (Comunidade de Discípulos e a Corte que deliberava as
leis da Comunidade). Os seus Emissários viajaram por muitas comunidades
judaicas existentes na terra de Israel. Mas foi por meio de Yosef haLevi, comumente
conhecido como “Bar Nabá” (ou Barnabé em Português), Sha’ul de Tarso (conhecido
por Apóstolo Paulo), Shila, Yehudá Bar Sabá (conhecidos como Silas e Judas
Barsabás), entre outros que falavam fluentemente o aramaico, o grego e o latin,
que os Emissários puderam também chegar a Diáspora e anunciar os Ensinamentos
de Rabi Yehoshua aos judeus helenizados e aos guerei tzédek (estrangeiros justos)
que se encontravam dentro de suas sinagogas.
Basta uma leitura cuidadosa para que se constate que Sha’ul
e os demais discípulos que estavam com ele eram subordinados à liderança da
Congregação de Jerusalém e lhe davam total obediência. Eles não agiam por conta
própria, e não há provas de que anunciaram sua mensagem à estrangeiros, a não
ser os que já estavam dentro das sinagogas, ou se interessavam pelas práticas e
a vivência judaica da época. Eles estavam em uma missão judaica de conscientização
do povo de Israel na Diáspora sobre a responsabilidade que temos como Povo
eleito, de cumprir com a vontade divina, ainda mais tendo em vista a chegada de
Mashiach e da era Messiânica. E também, como grandes catástrofes e dificuldades
estavam reservadas ao nosso Povo se não cumpríssemos o nosso papel. Dificuldades
essas que já haviam sido preditas pela Torá:
O ETERNO levantará contra ti uma nação de longe, da
extremidade da terra virá, como o voo impetuoso da águia, nação cuja língua não
entenderás; nação feroz de
rosto, que não respeitará ao velho, nem se apiedará do moço... Sitiar-te-á em todas as tuas cidades, até que
venham a cair, em toda a tua terra, os altos e fortes muros em que confiavas; e
te sitiará em todas as tuas cidades, em toda a terra que o ETERNO, teu Elohim,
te deu... O ETERNO
vos espalhará entre todos os povos, de uma até à outra extremidade
da terra. (Devarim/Deuteronômio 28:49-52
e 64).
E assim, ainda
hoje, aproximadamente 2000 anos depois, Rabi Yehoshua de Natzrát segue sendo um
guia para os Natzratim, tanto por meio de sua influência espiritual, quanto por
meio de seus ensinamentos, que foram registrados por seus discípulos. Rabi
Yehoshua não é apenas o judeu mais conhecido do mundo, como também não é
somente o rabino, cujo os ensinamentos tem sido propagado mais do que o de
qualquer outro antes e depois dele, mas o Ser humano que mais impactou a
história da humanidade. Sua pessoa e ensinamentos tem ultrapassado os séculos,
influenciando pessoas em todo mundo, de todos os povos e crenças, mesmo depois
de quase 2000 anos de sua ausência física. Entretanto, devido ao escasso
conhecimento e interesse de muitos em pesquisar a verdade sobre este grandioso
personagem da nossa história, a sua imagem tem sido interpretada de diferentes
maneiras após sua ausência física entre nós. Inclusive, atualmente, sua imagem
tem sido usada com fins políticos, religiosos e lucrativos. Portanto, é
necessário que fique claro que Yehoshua de Natzrat, não é a mesma pessoa que o
Jesus Cristo do Cristianismo, e nem o Yeshu hanotzri do Judaísmo Ortodoxo.
Ambos são deformações religiosas do personagem histórico Yehoshua de Natzrát.
Se não tivermos este aspecto bem esclarecido em nossas mentes, dificilmente
entenderemos quem foi Rabi Yehoshua, seus ensinamentos, e seus Discípulos, os
Natzratim.

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